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segunda-feira, 30 de abril de 2012

O ético em Schopenhauer e NIetzsche


Índice



Resumo e Método


O presente trabalho constitui-se de uma breve pesquisa bibliográfica sobre a concepção da ética em Schopenhauer e Nietzsche. Ambos considerados sob o prisma do irracionalismo, negando a primazia da razão para a compreensão do fenômeno humano e propondo o eixo vontade/potência como novo extrato ético.

Sendo impossível aprofundar a questão do ético em Schopenhauer e Nietzche em um trabalho como este, optei por abordar o tema de forma sucinta. Extraí algumas citações de ambos os filósofos e as comentei. Vi-me dependente, em extremo, dos comentaristas de suas obras, os quais me serviram de Hermes. Sendo alemães, pensaram e escreveram de forma hieroglífica. Seus tradutores discordam do sentido de muitos termos utilizados, o que mais dificulta a aproximação de suas filosofias. O que resta, é confiar na bibliografia que os trouxe a nós, e admirar com luneta o que só um potente telescópio poderia decifrar.
   


“Não há dúvida de que a transformação da modéstia em virtude foi de grande vantagem para os idiotas...”                   Schopenhauer
“que venha o vento quente do outono para que caiam mais depressa das árvores os frutos apodrecidos”                                             Nietzsche


1. Prólogo

Schopenhauer e Nietzsche são dois picos de montanhas. Surgem no cenário da filosofia a contragosto da Academia. Alemães, solitários, críticos, sarcásticos, altivos e des-construtores da ética normativa. Passam em revista a filosofia de então e soerguem-se contra ela. Mas não andam juntos. Enquanto o primeiro é apresentado como pessimista, o último se mostra para “além do bem e do mal”. O humor de ambos é diferente. O filósofo do Mundo como Vontade e Representação (ou Ideal) se afasta das pessoas, mas o criador da Vontade de Potência (ou Poder) as afasta. Quem se aproxima de Schopenhauer é logo evitado e quem procura Nietzsche logo o evita. Falam e não são ouvidos, escrevem e não são entendidos. “Quando uma cabeça e um livro se chocam – provoca Schopenhauer – e um deles produz um som como se estivesse oco, é sempre o livro?[1]” Nietzsche piora: “Quem conhece o leitor, já nada faz para o leitor. Mais um século de leitores, e o próprio espírito terá mau odor[2]”.

2. Princípio Ético em Schopenhauer


A Europa do século XIX está sendo chamada de volta à piedade cristã. O Século das Luzes gerou Newton, Berkeley, Hume, Vico, Voltaire, Diderot, Montesquieu, Rousseau, Kant, Fichte, Goethe, Schelling e Hegel. Esses ilustrados formaram pelotões de racionalistas, empiristas, idealistas, utilitaristas e românticos. Testemunharam o apogeu do humanismo e seu antropocentrismo, assim como endossaram o absolutismo e o republicanismo. Sofreram com guerras e revoluções, endeusaram a Razão e arruinaram o mundo com seu otimismo iluminista. Não puderam cumprir o que prometeram e entregaram a Schopenhauer um universo destruído o qual...

“... viajando pela França e pela Áustria em 1804, ficou impressionado com o caos e a sujeira das aldeias, a miserável pobreza dos agricultores, a inquietação e miséria das cidades. [...] Seria um brado para que o intelecto penitente se curvasse diante das antiqüíssimas virtudes da fé, esperança e caridade?[3]”.

Schopenhauer não cede aos apelos da religião, contudo, busca nela uma fonte ética para sua Contribuição à Doutrina do Sofrimento Do Mundo. Em suas palavras “nossa receptividade para a dor é quase infinita, aquela para o prazer possui limites estreitos[4]”. O homem estaria naturalmente pronto para o sofrimento e despreparado para o prazer. É justamente este o brado da religião: o sofrimento traz vida, o prazer provoca morte. Não é uma ética estóica, de indiferença pela dor, é uma adequação da physis com o nous, da natureza com o entendimento. O irracionalismo em Schopenhauer se caracteriza pela reorganização das hierarquias epistemológicas. Se antes a Razão ocupava o primeiro posto, agora ela subordina-se a Vontade. “Nós não queremos uma coisa [como o sofrimento] porque encontramos motivos para ela, encontramos motivos para ela por que a queremos[5]”  

3. Quereria o homem sofrer?


            Desde os primórdios a filosofia se embate com a questão da felicidade X sofrimento. Bernadette Siqueira afirma que “para Aristóteles, a causa final do homem, seu objetivo supremo, é a felicidade [a qual] obtém-se por meio da vida contemplativa, uma vida intelectual sossegada, longe das perturbações do cotidiano [6]”. Mas Will Durant interpola a tradição filosófica ao escrever que “quase sem exceção, os filósofos colocaram a essência da mente no pensamento e na consciência [o que para Schopenhauer foi um] “enorme próton pseudos[7]”. Não é no pensamento que reside o problema ético, mas na vontade, ou seja, na physis, não no nous. A physis suporta a dor e o sofrimento com naturalidade, sendo a busca da felicidade uma fuga racional antinatural, daí, o agravamento da questão ética. Se em minha tabela de erros e acertos inverto os valores e tomo o sofrimento como acidental, enquanto valoro a felicidade ao lado do correto, estarei em constante conflito com a natureza das coisas. Observarei o fenômeno (Kant) e abstrairei um “juízo de valor polarizado e antinatural”. Surgirá a dúvida onde haveria certeza, questionamento no lugar da resposta, culpa ao invés de paz. Eu chamaria sofrimento o que não é e buscaria a felicidade sem nunca a encontrar.
“Como nós não sentimos a saúde de todo nosso corpo, mas o pequeno local onde o sapato nos aperta, assim também não pensamos na totalidade de nossos interesses que vai perfeitamente bem, porém em qualquer insignificância que nos aborrece. Nisto se baseia a negatividade do bem-estar e da felicidade, muitas vezes ressaltada por mim e oposição à positividade da dor[8]

A ética de Schopenhauer não é pessimista - é trágica. Não sentimos a felicidade na dor por que antes de vivermos, filosofamos, racionalizamos, apolinariamos o sofrimento, e dentro das linhas apolíneas, o sofrer faz mal e é anti-natural. A razão chama o prazer no sofrimento de masoquismo (se em mim) e de sadismo (quando no outro). Schopenhauer (e Nietzche) quer voltar ao irracionalismo, afirmando que a coisa é natural quando não se constrói o artifício lógico (de Apolo), mas se vive a coisa (como em Dionísio[9]). Schopenhauer é melancólico ante o mundo que herdou não um pessimista. Fala dos azares no sentido que “consideramos as alegrias bem abaixo [e] as dores bem acima de nossa expectativa”.

O problema está na perspectiva que temos das coisas. O bem estar e a felicidade são negativos ao entendimento do mundo, uma vez que põe o homem em estado de euforia e contentamento, maquiando a angústia causada pelo sofrimento[10]. Esta felicidade mundana é uma farsa ante o quadro real de um mundo construído em cima guerras e revoluções. É onde aperta o sapato! A dor se mostra grande ante um sofrimento instantâneo, mas quando prolongada ao longo de uma existência, já não é tão importante. Quando nascemos soltamos um grito alucinante de dor, porquanto o oxigênio dilacera nosso pulmão desacostumado com a dor da respiração. Uma vez acostumados com a dor, já não choramos. A dor ainda existe, mas está em estado de natureza, irracionalizada, vivida no corpo, não na mente.

O sofrimento causa compaixão nos cristãos, e a compaixão incomoda Schopenhauer. Ele quer que os homens sintam suas dores, que sejam incomodados pelo sofrimento e encarem o mundo por si mesmos, sem ajuda externa, de anjos, homens ou Deus, pois a morte está no zênite de todo ser vivente, seja animal ou humano. Enquanto para o animal a morte é nada, para o humano é um infortúnio e deve ser encarada como obstáculo a ser vencido. É a faticidade da morte que permite ao humano transcender sua animalidade, o qual “cresce muito mais [...] a medida da dor do que a do prazer[11]”. Ou, nas palavras de Nietzsche: “Com todo o crescimento do homem em grandeza e elevação, cresce ele também no profundo e terrível[12]”.  

4. Nietzsche, uma releitura de Schopenhauer?


Doutor Mário diz que Nietzsche dormia menos de quatro horas por dia a fim de ler as duas mil páginas do impressionante escrito de Schopenhauer sobre o Mundo como Vontade e Representação[13]. Esta leitura estragou o mundo. Seguindo de perto a metodologia de Kierkgaard - que perdeu o sono lendo Abraão – o jovem prussiano perdeu dois anos com a leitura de Schopenhauer.

“Através da obra nietzcheana ver-se-á sempre uma influência preponderante das idéias de Schopenhauer, inclusive nos pontos em que se rebela contra toda interpretação pessimista. Embora refutando Schopenhauer, Nietzche nunca se liberta do veneno sutil que ele goteja em sua alma[14]

Schopenhauer estragou Nietzsche, e Nietzsche, fez o resto. Se a proposta do Mundo como Vontade e Idéia era um retorno ao trágico da vida e ao irracionalismo de Dionísio, a proposta do que Falou Zaratustra na Vontade de Potência do Anticristo para Além do Bem e do Mal        era uma concepção da ética pelo prisma do Humano, Demasiadamente Humano. O conjunto das obras nietzcheanas espeta a moral das coisas, não lhes permitindo permanecer em estado de Lótus. Foi uma vingança do pequeno órfão contra o Deus que lhe provocou. Uma imitação do Ulisses prussiano contra o Poseidon cristão, e “a maior parte de sua obra foi escrita de modo aforismático [...] por isso, não haja nada mais difícil [...] do que apreender o que seria o seu projeto[15]”.

O projeto nietzcheano é um continuísmo do schopenhauriano: desconstruir a ética formalizada em torno do “tu deves” e reconstruí-la a partir do “tu queres”. Se a questão ética gravitara do nous à physis e oferecera outro eixo para o problema do bem e do mal, Nietzsche não tornaria atrás. Ele provocará a moral até emancipá-la ao “eu sou”.

“Compreenda-se: nossa civilização passou primeiro pelo domínio do ‘tu deves’, quer dizer, pelo primado da moral e da religião; esta primeira etapa do espírito cede lugar ao domínio do ‘eu quero’, que designa o eclipse do mundo do dever e a liberação da vontade; enfim, o ‘eu quero’ supera-se no ‘eu sou’, uma nova relação do indivíduo com sua existência. Para apreender do interior estes períodos, vale apena situar-se na etapa intermediária – do domínio do eu quero[16]”.

5. Princípio Ético em Nietzsche


Subi aos vossos navios! O que necessitamos é de uma nova Justiça! E de uma nova libertação. E de novos filósofos! A terra moral é redonda, também. E a terra moral possui seus antípodas. E os antípodas também têm seu direito à existência. Há um mundo novo ainda por descobrir e até mais de um! Aos vossos navios, todos a bordo, filósofos![17]”                                     Nietzsche,“Gaya Scientia”

Em Gaya Scientia o princípio ético é figurado pelo mar desconhecido. O novo - a que se refere - lembra a voz de Ulisses contra os deuses gregos. Assim como a conquista de Tróia se atribui ao gênio do humano, a nova ética seria uma conquista dos novos justos, dos novos filósofos. Para tanto, é preciso navegar no mar do Poseidon cristão, enfrentá-lo e vencê-lo. A forma como a convocação ao embarque lembra os discursos napoleônicos é insigne: “Soldados! Sois uma das asas do exército da Inglaterra. Fizésseis a guerra nas montanhas, nas planícies e nos rios; resta-nos somente a guerra marítima[18]”. Nietzsche é Napoleão, e sua revolução contra a ética e a moral judaico-cristã é do mesmo quilate que a revolução contra os mamelucos de Alexandria:

Dir-vos-ão que venho para destruir a vossa religião, mas não acrediteis. Respondei que vim para restabelecer vossos direitos e para castigar vossos usurpadores, e que eu respeito, mais que aos mamelucos, a Deus, a seu profeta e ao Alcorão[19]”.                             Napoleão 
 
A refutação de Deus... Realmente o Deus moral é que está refutado”.                                          Nietzsche

          A questão ética é uma questão moral em Nietzsche. A moral dos judeus e cristãos católico/protestantes, baseada na Bíblia e na tradição da Igreja. É a moral de um Deus morto, que não corresponde com a vida humana conforme vivida nos estratos da sociedade comum. Serve de máscara e justificativa para a mediocridade e indigência humana. Esta moral prende a humanidade a um desnível existencial em relação as suas potencialidades, e tal prisão precisa ser aberta. O problema é que os religiosos detêm as chaves da cadeia, e não encontram rival que os vença e liberte os encarcerados, até que surge Zaratustra.

“Aquele que tiver que ser um criador para o bem e para o mal – na verdade, terá primeiro que ser um destruidor e fazer os valores em pedaços. Assim, o mal maior será parte do bem maior. Mas isto é um bem criativo. Falemos sobre isso, ó homens mais sábios,  por pior que seja. Ficar calado é pior; todas as verdades não expressas tornam-se venenosas. E seja lá o que for que aconteça à nossa verdade, que aconteça! Ainda há muita casa para ser construída[20]”.          
                        
Zaratustra é o super-homem de Nietzsche, o que liberta a humanidade para um mundo de pluralidades, diversidades, ineditismos e aberturas para o irracional. Neste mundo o dualismo das coisas é equivalente, ou seja, bem e mal são pesos iguais, não antagônicos, não complementares e não relativos. O sujeito e o objeto se relacionam trocando de papeis, experimentando o outro, perdendo-se para encontrar-se, e encontrando-se, perdendo. A verdade aceita o acontecimento como fator de transmutação e se sujeita a uma reconstrução de si assumindo a forma de contradição - de verdades. O subjetivismo não faz cara feia para o objetivismo, pelo contrário, o abraça e beija, o aceita como parte de si e abre um sorriso. Neste mundo, os deuses riem até morrer.

6. Conclusão


A questão ética em Schopenhauer e Nietzsche traz um novo corpo para a filosofia. Todo processo de retorno as origens iniciado no Renascimento permanece em ebulição ao longo dos séculos. As origens - para esses dois irracionalistas - remontam aos tempos da tragédia grega, tempo em que a vida era uma guerra, e a guerra era natural ao homem, assim como a morte, a dor e o sofrimento. Nem por isso a vida era ruim. O homem da antiguidade celebrava cada dia de sua vida, e o único lastro de eternidade era sua memória preservada nos cantos dos aedos. Com o advento da moral judaico-cristã, a vida deixou de ser celebrada e a morte passou a apavorar os homens. O inferno que igualava bons e maus passou a atormentar os não cristãos e o viver cedeu lugar ao saber. A ciência ganhou status libertador e a vida ganhou o peso da culpa. 

Schopenhauer e Nietzsche celebram a vida sem culpa ou medo da morte, um de forma melancólica, o outro, cantando mofas. O certo e o errado não são valores prontos e exatos, são conseqüências de escolhas voluntárias, soltas no mundo, longe dos crivos da razão e do saber. São idéias, representações, vontades e potencialidades. Nada definido.

7. Bibliografia


ABRÃO, Bernadete Siqueira. História da Filosofia. Ed. Nova Cultural. São Paulo. 1999
SANTOS, Mario Ferreira dos. Antologia da Literatura Mundial, Famosos Discurso Estrangeiros.
DURANT, Will. A História da Filosofia. Ed. Nova Cultural, Rio de Janeiro, 1996
NIETZSCHE, Friedrich. Vontade de Potência, Ed, Escala, São Paulo
PONTE, Carlos Roger Sales de Revista Discutindo Filosofia, ano2 – nº 10
SANTOS, Mario Ferreira dos. Antologia do Pensamento Mundial. Ed. Logos, São Paulo
SCHOPENHAUER, Artur. O Mundo como Vontade e Representação, III Parte. Ed. Nova Cultural


[1] Citado por WILL Durant in A História da Filosofia. Ed. Nova Cultural, Rio de Janeiro, 1996, p.290 
[2] Citado por Mário Ferreira dos Santos in Antologia do Pensamento Mundial. Ed. Logos, São Paulo, p.76
[3] DURANT, Will. A História da Filosofia. Ed. Nova Cultural, Rio de Janeiro, 1996, p.296 
[4] SCHOPENHAUER, Artur. O Mundo como Vontade e Representação, III Parte. Ed. Nova Cultural, São Paulo, 1999, p. 277
[5] DURANT, Will. Op. cit, p. 295
[6] ABRÃO, Bernadete Siqueira. História da Filosofia. Ed. Nova Cultural. São Paulo. 1999, p.63
[7] DURANT, Will. Op. cit, p. 295
[8] SCHOPENHAUER, Arthur. Op. cit., p. 277
[9] [O dionisismo] caracteriza-se por ser trágico, pois vê a existência como prazerosa, alegre, mesmo em meio ao sofrer mais duro, absurdo estranho e questionável que esta mesma vida comporta. Sem fugir do sofrimento, o homem dionisíaco afirma a vida indestrutível e jubilosa”. (Revista Discutindo Filosofia, ano2 – nº 10)
[10] Mais tarde, Heidegger denunciará este estado de “existência inautêntica”, afirmando que a humanidade está em fuga da faticidade da morte.         
[11] SCHOPENHAUER, Artur. Op. cit., p. 281
[12] Citado por Carlos Roger Sales de Ponte no artigo Isso é Esparta, (Revista Discutindo Filosofia, ano2 – nº 10, p.11
[13] Prefácio de Mário Ferreira dos Santos a Vontade de Potência. Ed. Escala, São Paulo, p.17
[14] idem
[15] ABRÃO, Bernadete Siqueira. História da Filosofia. Ed. Nova Cultural. São Paulo. 1999, p.413
[16] idem, p.415
[17] Citado por Mário Ferreira dos Santos in Vontade de Potência, Ed, Escala, São Paulo, p.11
[18] In Antologia da Literatura Mundial, Famosos Discurso Estrangeiros, Ed. Logos, 10ª Ed, São Paulo, 1965. p. 221
[19] Idem, p. 223
[20] DURANT, Will. A História da Filosofia. Ed. Nova Cultural, Rio de Janeiro, 1996, p.296  

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Elaboração de Plano de Aula - Fundamentos da Educação Inclusiva


Introdução


A elaboração deste Plano de Aula configurou-se como um desafio que foi ficando cada vez maior, embora também mais animador, à medida que íamos estudando e sendo inteiramente tomados pelo assunto. Não bastasse a complexidade de ter que se elaborar um Plano de Aula na condição de alunos que nunca lecionaram, somaram-se a este desafio: a necessidade de optar por uma disciplina do Ensino Fundamental (onde não é prevista a disciplina de Filosofia); o uso de linguagem específica à faixa etária que escolhemos e, sobretudo, a adaptação do conteúdo com o uso de novas estratégias, para a inclusão de alunos portadores de necessidades especiais.
Trata-se, portanto, de um exercício teórico. A presença de alunos com deficiência em sala de aula comum é uma realidade recente, onde nenhum de nós teve a oportunidade de, no ciclo regular de ensino, interagir com alunos portadores de alguma necessidade educacional especial.
Antes de formularmos, de fato, nosso Plano de Aula, determinamos algumas diretrizes, como a escola em que lecionaríamos, os recursos disponíveis e a nossa capacidade em lidar com as diferenças em sala de aula.
Assim, uma vez determinado que as aulas seriam para o quinto ano do Ensino Fundamental de uma escola pública, o próximo  primeiro passo foi escolher a disciplina de Matemática para aplicação. Em seguida, optamos pela deficiência auditiva para embasarmos nossos estudos sobre educação inclusiva.





Plano de Aula

  1. Dados de Identificação
v  Escola: E.E.P.S.G Protágoras de Abdera.
v  Disciplina: Matemática.
v  Conteúdo: Conceitos de Tabuada.
v  Ano: 5º ano do Ensino Fundamental.
v  Professores: Natachy, Rogério e Vanderley.

  1. Justificativa

Essencial para a vida cotidiana em sociedade, a compreensão da tabuada garantirá autonomia aos alunos, que utilizarão os conceitos destas operações matemáticas durante toda a vida. A partir da demonstração da importância da tabuada no dia a dia dos alunos (compras, cálculo de troco, estimativa de peso), demonstraremos que todas as atividades corriqueiras exigem a compreensão da multiplicação dos números, onde a proposta é desmistificar o ensino da tabuada como simples repetição mecânica de resultados.

  1. Habilidades desenvolvidas

A partir do estudo da tabuada, os alunos serão compelidos a desenvolverem muitas habilidades, principalmente:
·         Raciocínio lógico;
·         Concentração;
·         Comparação entre o conceito de tabuada e a sua aplicação cotidiana;
·         Interação entre os colegas para obtenção dos resultados.

  1. Objetivos
·         Explicar o conceito de tabuada;
·         Como o conceito é mais importante que a decoreba dos números;
·         Experimentação cotidiana.

  1. Metodologia
·         Aula expositiva;
·         Exibição de recursos visuais (slides e vídeos);
·         Dinâmica e Jogos;
·         Avaliação.

  1. Tempo estimado
·         Quatro aulas (200 minutos).

  1. Faixa etária
·         Alunos do quinto ano do Ensino Fundamental – idades entre 10 e 13 anos.

  1. Tempo para realização da atividade
·         Uma hora para cada dia de aula.

  1. Local para atividade
·         Sala Comum;
·         Sala de Vídeo.

  1. Recursos utilizados
·         Lousa e giz;
·         Dados;
·         Slides com imagens e vídeos;
·         Computador e retroprojetor;

  1. Avaliação
Os alunos serão avaliados por nós na última aula, onde poderão escolher a maneira pela qual serão avaliados: individualmente ou em grupos de até cinco alunos. Cada aluno ou grupo poderá escolher entre as seguintes ferramentas de avaliação:

·         Resolução de exercícios;
·         Redação sobre o tema;
·         Teatro;
·         Mímica e música
·         Desenho e pintura.


Primeira Aula – O que sabemos sobre a tabuada?
Duração: 01 hora

Procedimento: Vamos perguntar aos alunos se eles sabem o que é tabuada. Suas respostas serão anotadas na lousa e, posteriormente, quando cada resposta for sendo discutida, os principais conceitos serão demarcados com giz colorido. Em seguida, abordaremos os aspectos históricos da tabuada, sua origem, importância e significado para a sociedade. Após discussão e aprofundamento no tema com os alunos, pediremos para que eles nos dêem exemplos de como a tabuada pode ser observada e exercitada no dia a dia deles. Exemplo de como associaremos a tabuada à rotina dos alunos:
  • Marcelo foi até a cantina da escola e pediu dois refrigerantes. Cada refrigerante custa R$2,00. Como calcular o valor da compra utilizando a tabuada do dois?
  • Análise de outros exemplos fornecidos pelos alunos.
·         Análise da frase do Governador Geraldo Alckmin, realizada em entrevista, sobre a “decoreba” da tabuada. Fazê-los pensar se é importante ter decorados os resultados de uma tabela ou aprender os conceitos que regem os fatores de multiplicação: "Estou insistindo muito na volta de procedimentos tradicionais de ensino, como memorizar a tabuada, que é uma coisa que saiu de moda. Não vejo outra maneira de saber quanto é 9 vezes 7 senão memorizando que é 63. Os jornalistas aqui são jovenzinhos e estudaram pelos métodos construtivistas. A pessoa entende como chega lá, mas não sabe de memória. Defendo que se memorize a tabuada. É memorex”. (OESP 8 de março de 2007)*

Flexibilização do conteúdo: Tomaremos cuidado para não falarmos enquanto estivermos de costas para a sala, de forma que o aluno com deficiência auditiva possa acompanhar pela leitura labial tudo o que dissermos. Daremos um tempo para que todos copiem os conceitos dispostos na lousa e forneceremos um resumo escrito e com algumas imagens, dos conceitos básicos sobre tabuada. Por não haver intérprete de Libras em sala de aula e por não sermos fluentes nessa língua, todo o material será enviado ao professor responsável pela educação especial (em outro período de aula) para que ele aprofunde o assunto com o aluno.



Segunda Aula – Ilustrando a tabuada
Duração: 01 hora

Procedimento: Realizaremos a exposição de slides com imagens e vídeos legendados, que auxiliem a todos os alunos na compreensão e conceitualização dos fatores algébricos de multiplicação. Exemplos de imagens e vídeos que demonstraremos aos alunos:
  • Tabuada cantada: Vídeo legendado que canta histórias infantis e associam a memorização da tabuada ao ritmo das histórias, facilitando o processo de aprendizado: http://www.youtube.com/watch?v=A8t3DJvXcOE&feature=related;
  • Utilização de imagens e conceitos descritos em slides, tais como:
  

                                     

Flexibilização do conteúdo: A utilização de imagens para o ensino do conteúdo é fator determinante para o sucesso da aprendizagem do aluno surdo. Contudo, acreditamos que esta aula aplicada em imagens e vídeos será útil também para todos os demais alunos, onde esperamos promover a integração entre eles através da linguagem visual, comum a todos. Todo o material será encaminhado ao professores especializados para reforço ao aluno surdo.

Terceira Aula – Interagindo com a tabuada

Duração: 01 hora

Procedimento: Nesta aula, os alunos formarão grupos de até cinco alunos para a realização de dinâmicas envolvendo os conceitos de tabuada. Para isso, vamos propor o desafio dos dados, que contará com o nosso acompanhamento. Diante de cada lance, analisaremos como os alunos devem formular o conceito de multiplicação da tabuada, independentemente do resultado obtido, onde o objetivo será fazê-los compreender como cada resultado poderia ser enunciado. Sobre a dinâmica:
  • Cada aluno lançará dois dados sobre a mesa e anotará em seus cadernos os resultados obtidos. Em seguida, cada grupo deverá discutir sobre como conceituar a multiplicação de todos os resultados. Cada aluno repetirá o mesmo procedimento e, ao final, ganhará o grupo que melhor conceituar suas estratégias para elaboração de resultados. Exemplo:

Joãozinho lança dois dados, obtendo os resultados: 2 e 3. O aluno Pedro repete o mesmo procedimento e obtém os resultados 5 e 6. Todos os resultados serão anotados no caderno, da seguinte maneira:
João: 2X3
Pedro: 5X6

Quando todos os resultados estiverem descritos nos cadernos dos alunos do grupo, todos deverão discutir sobre como chegar a um resultado. Exemplos:
“Dois vezes três” é o dois repetido quantas vezes?
“O três repetido duas vezes” daria o mesmo resultado que o “dois repetido três vezes”?

Flexibilização do conteúdo: O grupo onde o aluno surdo estiver inserido receberá nossa atenção mais próxima, o que não interferirá no aprendizado de todo o grupo, uma vez que todos poderão ser beneficiados com explicações mais pormenorizadas. Os alunos receberão as regras do jogo proposto por escrito, de forma a fazer com que todos assimilem o que deve ser feito. As instruções sobre o jogo de dados também será fornecida ao professor especializado, para que o aluno absorva com mais qualidade os conceitos propostos.

Quarta Aula – Avaliação

Duração: 01 hora

Procedimento: Nesta aula, os alunos serão avaliados individualmente, ainda que possam formar grupos de até cinco alunos. O objetivo será avaliar a evolução do conhecimento sobre os conceitos de tabuada, levando em consideração todo o processo de ensino-aprendizagem, e não apenas os seus resultados. Como o que nos interessa é o processo pelo qual os alunos percorreram, eles poderão escolher a forma como serão avaliados, adaptando o conteúdo à linguagem com a qual têm mais familiaridade: resolução de cinco exercícios lógicos sobre o tema; redação; teatro; mímica e/ou música e desenho e/ou pintura. Os alunos terão sido informados sobre essas opções na aula anterior, motivo pelo qual já deverão ter preparado o material da apresentação, caso assim prefiram.
Flexibilização do conteúdo: Permitir que os alunos escolham o método pelo qual serão avaliados, faz com que tenham a liberdade de expressar o que aprenderam, exercitando a autonomia que deverão possuir durante toda a vida escolar. O mesmo valerá ao aluno surdo, que não precisará ser submetido a uma avaliação homogênea, tendo a possibilidade de expressar-se pelo método que considerar mais adequado para as suas potencialidades. Além disso, manteremos conosco a sua ficha de proposta educativa, que servirá para a troca de informações entre nós, professores da sala comum que não possuímos fluência em Libras, com o professor especializado do período da tarde.



Ficha de Proposta Educativa Para Alunos de Inclusão*

Identificação: do aluno e os contatos da família
Nome: José Carlos Filho
Data de Nascimento:   09/05/2000
Endereço:   Rua Raul Seixas, 13.                      Telefone: 2222-2222
Filiação: Luiza Basílio e José Carlos Basílio.

Dados relevantes sobre a família e histórico pessoal do aluno
Família participativa no processo de ensino-aprendizagem. O aluno possui muito interesse por matemática, possui boa leitura labial e interage bem com os colegas da sala. Apresenta dificuldade média para se comunicar, mas já desenvolveu mecanismos próprios de interação com pessoas que não são fluentes em Libras.

Dados sobre a escolarização
O aluno estuda no mesmo colégio desde que iniciou sua vida escolar.

Atendimentos fora da escola
O aluno freqüenta as aulas de educação especial nos períodos da tarde neste colégio e possui acompanhamento de fonoaudióloga particular duas vezes na semana.

Necessidades especiais identificadas
Identificamos que o aluno possui boa capacidade de concentração, embora muitas vezes fique disperso quando tenta acompanhar o que os colegas da sala estão fazendo (leitura labial). Compreende com facilidade os conteúdos apresentados, registra suas anotações de forma organizada no caderno e apresenta interesse em levar os materiais disponibilizados em sala de aula para o seu professor de educação especializada.
O aluno não apresenta dificuldades cognitivas muito superiores aos demais alunos da mesma faixa etária, ficando claro que a maior barreira para o seu aprendizado seja o nosso desconhecimento sobre Libras e, conseqüentemente, a falta de um professor tradutor na sala.
Leitura e Escrita
O aluno demonstra compreender os conteúdos fornecidos para leitura. Apresenta razoável capacidade de escrita, com erros comuns aos que são alfabetizados por Libras (com suas especificidades na construção de frases e elaboração de argumentos). Fora isso, apresenta desenvolvimento similar aos colegas de classe.

Objetivos gerais
O aluno tem condições de ser plenamente alfabetizado, em nível similar ao dos demais colegas. Pretendemos potencializar suas capacidades de raciocínio lógico, empregando exercícios matemáticos desta natureza, uma vez que o aluno demonstra inclinação por essa área.

Psicomotricidade
Similar aos dos demais alunos, precisando melhorar sua caligrafia.

Auto-estima
Boa auto-estima. Interage por métodos próprios com os demais alunos (mímicas, bilhetes escritos etc.) com os quais divide a sala de aula desde que ingressou na vida escolar.

Atenção e Concentração
Nas aulas de matemática o aluno apresenta boa concentração, ficando um pouco mais disperso quando os demais colegas estão agitados, pois acaba se virando muitas vezes para realizar a leitura labial.

Responsáveis pela construção do plano
Professor referência: Natachy, Rogério e Vanderley - Da turma regular.
Professor especialista: Ana Rita da Cruz Capelozi - Do Atend. Educ.  Especializado.



Conclusão


Para quaisquer que sejam as disciplinas a serem oferecidas aos alunos com necessidades especiais de educação, faz-se necessário o oferecimento de recursos por parte do Estado, a reorganização da estrutura física e pedagógica da escola, a formação primária e continuada de professores, bem como a participação da família em todos esses processos de ensino-aprendizagem.
Para a realização deste Plano de Aula, contamos com as informações das apostilas da disciplina e com as leituras realizadas durante a pesquisa. Contudo, nenhum de nós vivenciou a interação com alunos com necessidades educacionais em sala de aula, haja vista que tal quebra de paradigma é recente e somente agora vem ganhando projeção social. Por isso, tivemos que elaborar um Plano de Aula sem qualquer intimidade com o assunto, o que nos fez ficar restritos à teoria da educação inclusiva.
Apesar disso, o exercício proposto nos fez enxergar que ainda que não haja os recursos necessários (um professor fluente em Libras dentro da sala de aula, por exemplo) algumas medidas podem ser tomadas pelo professor para que todos sejam capazes de apreender os conteúdos, independentemente de ter ou não uma necessidade educacional especial: falar mais pausadamente de frente para toda a sala, disponibilizar recursos que atendam às especificidades do aluno (no caso proposto, materiais visuais), procurar realizar atividades em grupo para oferecer a possibilidade de interação entre os alunos, diálogo com a família para maior conhecimento sobre a realidade do aluno, interação constante entre o professor da sala comum e o de educação especializada, avaliações de desempenho individualizadas etc.
Desta maneira, o aluno não será apenas integrado na sala de aula, mas terá também a possibilidade de ser incluído socialmente, tendo garantidos os seus direitos de acesso e permanência na escola, construindo uma sociedade mais equilibrada, com sujeitos pensantes e aptos a exercerem suas potencialidades. Afinal, é na escola que tais perspectivas podem e devem ser estimuladas.

Considerações Finais

Apesar da bagagem teórica aprendida nesta disciplina, especificamente com a elaboração deste Plano de Aula, sentimos falta de uma vivência prática, onde os conceitos de inclusão pudessem ser analisados no cotidiano das escolas públicas. Por este motivo, sugerimos que a disciplina seja adaptada pelo Claretiano, de forma a sugerir aos próximos alunos um contato mais próximo da realidade, a partir da pesquisa em sala de aula.
Um exemplo dessa sugestão, seria lecionarmos, de fato, o Plano de Aula que elaboramos e, com base nele, redigirmos um relatório sobre os resultados obtidos. Pensamos que somente assim poderíamos ter um esquema mental formado sobre o assunto, atrelando teoria e prática, pilares indissociáveis de um aprendizado concreto e de qualidade.

Bibliografia


MINETTO, Maria de Fátima. Currículo na Educação Inclusiva: Entendendo esse Desafio. Paraná: Editora IBPEX, 2008. 138 pág.

E-Referências
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